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Em banho café

Em banho café

31.Jul.17

Conta até 31. Vais mudar?

Fecha os olhos e conta devagar. 1, 2, 3, 4, 5… 10… 20… 30… 31. A cada número, um ano de vida. Conta devagar e lembra-te de quem és, de onde vens. Pensa para onde queres ir.

 

2017, o ano em que, com 31 anos, resolvi mudar tudo. Mudei de casa – e saí finalmente da casa dos meus pais –, mudei de emprego e terminei um namoro de quase uma década. Tudo de seguida, em poucos meses. Um encadeamento pouco concertado, com guinadas dignas de um filme de ação de Hollywood e aqui estou eu, fora da zona de conforto e à procura de terra firme para assentar um novo caminho.

 

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Mudei e, na verdade, nada nem ninguém nos prepara para o choque. Ninguém nos ensina que sair dos carris de tantos anos é um processo que dói. Ninguém nos prepara para os choros constantes, para as dúvidas nas caras de quem nos está próximo, para as dúvidas que persistem em nós. Ninguém nos avisa que o coração aperta quando olhas para o lado e os teus amigos, da tua casta maravilhosa dos anos 80, orientam-se entre convites de casamento e fraldas. Logo o teu coração, que desde sempre tenta fugir a 7 pés de convenções e expetativas sociais. Logo o teu, mas está tão apertado e mal consegues respirar.

 

Mudei. E ainda estou nessa viragem. O mundo surge-me a uma velocidade estonteante. Quase como se me tivesse feito a uma onda, mas ainda não sei bem se me mantenho em cima da prancha ou não. Talvez seja isso, mas na verdade nunca fui feita para desportos. Não faço ideia do que é surfar.

 

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Mudei e, descubro agora, tudo é incerto. Há mil pensamentos estilhaçados que me passam pela mente, todos os dias, a todas as horas, a todos os segundos. Morro de medo de me desiludir e desiludir quem mais gosto. Morro de medo de perder o pouco que conquistei até agora. Morro de medo de deixar de ser quem sou, no meio de tanta mudança. Se não somos onde moramos, o que fazemos e quem amamos, somos o quê? Restará alguma coisa de nós?

 

Mudei e as palavras de Angelica Schuyler ecoam em mim, constantemente: Nice going, Angelica, he was right / You will never be satisfied. Alguma vez me contentarei ou procurarei incansavelmente um caminho que nunca vou encontrar? Decisões certas? Erradas? Moedas ao ar, cara ou coroa. Um dó li tá. Fechar os olhos. Contar até 31.

 

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Mudei e, ao mesmo tempo, há uma brisa fresca que me empurra. Tudo dói, mas a dor impele-me a continuar. Vou-me redescobrindo por mim, à procura do resultado dos 20 anos e da consolidação de três décadas. O horizonte é inspirador e dou passos em frente. Tímidos, mas sem parar de continuar. Volto ao musical Hamilton em busca de inspiração e, no momento, troco Angelica pelas palavras de Hamilton: There’s a million things I haven’t done / But just you wait, just you wait. Fecho os olhos e conto até 31. Devagar. Olho em volta e vejo onde estou. Abano a cabeça, mudo a perspetiva. Dispo-me de medos. Há tanto de mim para descobrir. Há tanto de mim para completar neste puzzle. Just you wait.

 

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