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Em banho café

22.Jan.20

Um dia as palavras morreram

A boa filha à casa torna. Passou um ano, quatro meses e 18 dias desde que parei por estas andanças do Em Banho Café. Sem vergonha, porque os abrigos das letras servem para as ocasiões e não seguem as cadências do relógio, do calendário ou da agenda. O tempo passa e os abrigos das letras permanecem, à espera do convite informal: “olha, sei que não falávamos há uns tempos, queres ir tomar café?”. E lá aparecem, disponíveis e imutáveis, à espera de ouvir o que contam os nossos contos e desabafos.

Hoje saiu-me isto. E retomei o contacto. O “Em Banho Café” cá estava, à minha espera. 

 

Um dia as palavras morreram.

Organizaram-se vigílias, depositaram-se flores embebidas em tinta de caneta.

Preparam-se missas silenciosas e condolências sentidas,

Emudecidas no verbo.

Ocas na voz.

 

Um dia as palavras morreram.

Enfranzinaram-se, mirraram, embruteceram. Consta que implodiram.

Oxidaram sílabas e dissolveram ditongos,

Enlearam o disfemismo no eufemismo.

E o figurativo corroeu-se no real.

 

Um dia as palavras morreram

E o texto, que tinha virado frase, que tinha virado letra, virou pó.

E o pó esterilizou o mundo.

 

Um dia as palavras morreram.

À falta de oxigénio, sufocaram no meu peito. Extintas.

À falta de coragem, desistiram. Vãs.

 

Um dia as palavras morreram, ponto final.

 

*Estava prestes a publicar este post quando li a notícia da morte do Terry Jones, dos Monty Python. Não consigo pensar em nada mais cruel para um génio criativo das palavras do que sofrer de uma demência que o impede de falar e compreender a linguagem; do que perceber que realmente "as palavras morreram". As tuas palavras vão fazer-nos muita falta, Terry. Obrigada por teres feito o mundo mais feliz.